Terça-feira, Fevereiro 21

Caça-fantasmas
De manhã, o sol bate na janela grande do meu lado direito, atravessa a transparência do vidro sem nenhuma dificuldade, e inunda o escritório com uma tal convicção que ficamos a ser mais sol do que nós, e mesmo do que éramos nós, antes de ele ter chegado. Além de nos roubar a identidade, até às 9h impede-nos também de distinguirmos as coisas que se passam na rua. De vez em quando, sombras aparecem e desaparecem rapidamente nas paredes, não sei se a centímetros ou a metros de mim, se projecções de homens, se de algum tipo de animais. Depende essencialmente da luz e do ritmo com que passam.  Quando tento discernir a natureza de um vulto, já ele passou, e só me fica uma impressão. Às vezes essa impressão faz-me olhar para fora, à procura de uma revelação ou de uma confirmação na realidade. Mas, até às 9h, a realidade é o sol. E o excesso de luz não me mostra nada, só evidencia a minha cegueira e o interior: que bem que se está cá dentro.

Sábado, Fevereiro 4

Época Glaciar
Ontem começou o frio. Telefonei aos meus pais, que já são pessoas com alguma idade, a perguntar como é que estava a ser para eles. O meu pai respondeu-me que não sentia frio nenhum. Ao fundo, ouvi a minha mãe a dizer o mesmo. Como habitualmente moram na aldeia, que é gelada, e como neste momento estão no Porto, que é menos gelado, a temperatura dos seus corpos mantem-se. Eu, que já vim para Lx há seis ou sete anos e que, de resto, frequento pouco o Porto, arruinei completamente a hipótese de temperar o meu corpo conforme a geografia. Quando vou à aldeia no Inverno é como ir a um tempo completamente diferente, tipo à idade do gelo. Mas pensar nisso deixa-me mais quente.
Período Anterior
A fotografia esquecida
no bolso secreto da carteira
ao lado do tampão
que cede
a outra mulher.

Quinta-feira, Outubro 20

Natureza Morta
Estava sozinho em exposição
concentrado nos quadros,
a negociar engates
pelas laterais.
Reflexos de pêssegos partidos
pela mesma caçadeira que matou a lebre
esventrada pela mesma faca
que amanhou os peixes oleosos de Manet.
Será que o velho se movia
ou não eram mesmo amantes?
Será que era excitante?
Ou coincidências de merda?

Terça-feira, Outubro 4

«Greeley» 2002
206 x 264 x 6,2 cm (framed)
© Andreas Gursky / VG Bild-Kunst 2008.

Segunda-feira, Setembro 19

Quinta-feira, Setembro 15

Walker Evans, Damaged, c. 1928