Caça-fantasmas
De manhã, o sol bate na janela grande do meu lado direito, atravessa a transparência do vidro sem nenhuma dificuldade, e inunda o escritório com uma tal convicção que ficamos a ser mais sol do que nós, e mesmo do que éramos nós, antes de ele ter chegado. Além de nos roubar a identidade, até às 9h impede-nos também de distinguirmos as coisas que se passam na rua. De vez em quando, sombras aparecem e desaparecem rapidamente nas paredes, não sei se a centímetros ou a metros de mim, se projecções de homens, se de algum tipo de animais. Depende essencialmente da luz e do ritmo com que passam. Quando tento discernir a natureza de um vulto, já ele passou, e só me fica uma impressão. Às vezes essa impressão faz-me olhar para fora, à procura de uma revelação ou de uma confirmação na realidade. Mas, até às 9h, a realidade é o sol. E o excesso de luz não me mostra nada, só evidencia a minha cegueira e o interior: que bem que se está cá dentro.




